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CANTO E CONTOS DO CHICO

CHICO LESSA

 

 

"HISTÒRIAS DO ALCYR (III)

Já são quatro horas escrevendo e o cansaço está querendo cortar as horas extras previstas pela insistência. Embora eu não beba, assinaria embaixo do refrão: “Isso tá virando uma cachaça”! Depois que peguei o gosto, as elucubrações do meu ócio criativo estão, compulsivamente, tentando me convencer que escrever só faz mal à bunda. Então, vamos lá!

A frequência da “boite” era tão instável quanto o tempo e este sim, quando sobrava, era o que regia nossas conversas. Do nada, ficava repleta e, nesses momentos, a nossa interação era contínua e focada. Não medíamos esforços pra agradar aos clientes. Éramos bons anfitriões e sempre recebíamos elogios dos garçons que faturavam mais e agradeciam o nosso empenho com lanchinhos não combinados.

De repente era o só! Vazio total e o silêncio refletido das paredes acarpetadas. Isso tornava as nossas conversas intervalares soarem claras e agradáveis. Sempre gostei de histórias e eu era, dos dois, o principal curioso. Dada a brecha, queria saber do Lamartine, se o conheceu etc..

Ele havia chegado de Muriaé, sua terra natal, seguindo os passos do Ary Barroso, nascido em Ubá, na mesma “Zona da mata”. Embora tenham composto varias músicas em parceria, segundo o Alcyr, o Ary, com sua implicância ranzinza notável e costumeira, o acusava injustamente, de plagiar a ideia que o levou a compor “Aquarela do Brasil”, tão logo ouviu “Canta Brasil”, parceria com David Nasser, lançado por Francisco Alves, o rei da Voz. Na era Vargas havia uma tendência ufanista e vários compositores arriscaram o tema.

A respeito do Lamartine, com quem compôs vários sucessos, confidenciou que por ele foi contratado assim que chegou ao Rio, conseguindo seu primeiro emprego como pianista. Alcyr, muito magro, andava colado ao Lamartine, que era mais velho, de outra geração, tal qual um capanga e com isso ouvia gozações diariamente. De acordo com ele, o Lamartine era um músico e letrista excepcional, porém não tocava nenhum instrumento. Gostava de frequentar a Confeitaria Colombo e quando pintava uma ideia começava a batucar na mesa, ao mesmo tempo em que ia escrevendo e compondo a melodia. Em seguida, pegava o Alcyr pelo braço e o levava até ao piano mais próximo. Ele cantarolava a melodia e o Alcyr ia buscando harmonizar. Quando este entendia de uma forma diferente da que sua cabeça propunha, ele beliscava o braço do Alcyr, dizendo: ”Não é nada disso”! O Alcyr, com sua aparência esquelética, não aguentou o trampo e se despediu. Dizia: ”Eu vivia cheio de hematomas no braço. Eu, heim, sai pra lá, Lalá”!

Um dos relatos mais interessantes que ouvi, foi quando se referiu ao André Filho. Contou-me que o compositor e amigo, às vésperas de encerramento das inscrições de um concurso de marchinhas de carnaval na década de 1930, pediu-lhe ajuda para compor a segunda parte de tema embrionário. Um esboço, que temia não conseguir sozinho. No caminho pra casa do André, ao passar num bar costumeiro, encontrou-se com o Chico Alves, que naqueles tempos representava grana na certa, e se desviou do propósito. Com isso o André “dançou” e como! Do jeito que pode, acabou se virando e fez a tal segunda parte.

No dia seguinte, depois de uma “chamada” no Alcyr pela falta de consideração, cantarolou a marchinha para que o amigo opinasse, muito embora de nada valesse qualquer sugestão, pois a inscrição já fora feita. Foi assim que o Alcyr ouviu, pela primeira vez, a segunda parte de “Cidade Maravilhosa”, de cujo feitio, ironicamente, havia se afastado! André ganhou o concurso e, depois daquele ano, até nossos dias, só deu ele. Bom carnaval a todos!

Chico Lessa"

 

Menina dos Olhos - 1982