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go to site Iniciamos hoje no blog uma coluna especial para CHICO LESSA  - CANTO E CONTOS DO CHICO -  que vem nos encantando com sua forma livre, leve e solta de escrever.

citing in an essay Após cada conto, postaremos uma de suas músicas.

http://sinarsehat.com/my-writing-paper/ Hoje:  " Me Pega, Me Larga"  (1982) - de Chico e Márcio Borges, interpretada por see url Chico e Boca Livre.

 

Chico Lessa, cantor e compositor capixaba, autor de inúmeras músicas, solo ou em parcerias como Maurício Maestro, Tina Tironi e Márcio Borges.

 

CANTO E CONTOS DO CHICO:

 

"HISTÓRIAS DO ALCYR (I)

1981, Rio! A noite era uma criança que dormia tarde e eu era uma de suas babás. Eu fazia parte de um enorme contingente de notívagos naturais e vindos de outros lugares, como eu, que circulavam insones, aqui e ali, batendo ponto nos "points" cariocas. Numa dessas, fui parar num bar perto da praia, na Teixeira de Melo, Ipanema!

Lembro que estava com um amigo e embora não lembre quem, fui por ele apresentado a um colega de profissão chamado Antônio Santos Cunha, o Tony do Trio Yrakitan. Ele havia substituído o Edinho, um dos fundadores do trio, famoso desde a década de 1950, falecido em 1965. Ainda garoto, não me cansava de ouvi-los, ao mesmo tempo em que imaginava como faziam pra cantar dentro do rádio. Confesso que até hoje não sei!

Papo vai, papo vem, acabei sendo a solução de algo que o afligia. Ele precisava viajar com o Trio e perguntou se eu não poderia substitui-lo por uma semana, num bico que fazia na boite que havia no térreo do Leme Palace Hotel, no bairro do Leme. Caiu do céu no meu bolso furado daqueles tempos. ”É mole”, disse ele! “Você chega às sete e até às dez intercala a cada meia hora com um senhor que toca piano”. E assim o fiz!

Era um lugar pequeno e aconchegante, com muito conforto, em cuja decoração o vermelho predominava harmonicamente com os outros detalhes e uma luz difusa que permitia ver, mas sem saber a quem. A boite, frequentada basicamente por hóspedes, na maioria das vezes recebia um público pequeno e, naquele dia, durante o primeiro set, só havia um casal de namorados. De repente, eis que chega pela entrada de serviço dos garçons, um senhor muito franzino, aparentando uns sessenta e poucos anos, trajando um "smoking" e gravata borboleta! Sem apresentações, dá boa noite, senta-se ao piano de meia cauda e, entre um comentário e outro, foi mostrando a que veio! Embora tocasse músicas antigas, seu toque e harmonia eram refinados, o que me fez prestar muita atenção.

De repente, o som levou meu pensamento à minha infância e aos parques de diversão e serestas, nos quais sempre se ouvia e cantava aquela canção.Quem, de minha geração, não lembra de " vento que balança a palha do coqueiro, vento que encrespa as ondas do mar...."? Quando terminou, eu disse: “qual é o nome desta música?” Ele respondeu: “É Prece ao vento”. E de quem é, perguntei em seguida! Quase caí do banco com a resposta: “É minha e do Gilvan”. ”Não acredito”, balbuciei estupefato, já perguntando seu nome! Muita honra e sorte em meu caminho! Ali estava Alcyr Pires Vermelho, um dos mais importantes compositores brasileiros, autor de clássicos como esse citado, ”Laura”, ”Dama das Camélias” e muitos outros ! Mostrou-se uma pessoa calma, bem humorada, simples e generosa. Disse que, além de música, gostava de pintura primitiva e pintava uns galos bem coloridos sobre papel preto. Por coincidência, a Gal Costa, que ele não conhecia, estava estourada nas paradas musicais com “Canta Brasil”, dele e do David Nasser.

Nessa época, eu dividia um apartamento no Jardim Botânico com Israel e Viviane, um casal de amigos. No térreo do edifício, vivia o violonista Turíbio dos Santos e lá rolava um estúdio. Morávamos no terceiro andar e da janela, por muitas vezes cumprimentei, entre outros, o Egberto Gismonti e Caetano que sempre frequentavam o espaço. Quando o Alcyr soube disso, pediu-me que fosse o portador de um de seus galos ao compositor baiano, a quem admirava e também não conhecia. Caetano ficou surpreso e emocionado. Manifestou o desejo de conhecê-lo, pediu-me que agradecesse e levasse a ele um abraço de fã.

Pois é, isso e muito mais aconteceu porque o Tony sumiu, eu ganhei a vaga e lá fiquei até ser transferido para o "Skylab", no terraço do Othon Copacabana. Foi um ano generoso e estimulante. O Flamengo ganhou o mundial e eu continuei curtindo o piano e as histórias do Alcyr."

Chico Lessa